segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Calada da Noite

"Caminhávamos à beira-mar. Os sons e as cores da festa ficavam mais distantes a cada passo na areia. Ali em silêncio, sob a luz das estrelas e com a brisa do mar balançando nossos cabelos e roupas, eu sentia paz; estava próxima da felicidade. Você já esteve numa festa e saiu à francesa só para observar o céu? Posso garantir que é mágico.
 Mas naquele dia foi melhor ainda. Os pés descalços e a maresia pareciam apenas complementar a presença física que seguia alguns metros atrás de mim. Era bom ter alguém ali e, mesmo assim, o momento continuar sendo meu.
 Seguimos caminhando sem dizer nada. Em alguns momentos, unhas se esbarravam e desesbarravam harmonicamente só para selar que tínhamos um ao outro ali. Isso era o que  eu mais apreciava: não precisávamos de palavras.
 Para a cultura "normal" aquela era uma cena de loucos. "Como assim você prefere se calar do que embebedar?" "Para quê esse tempo para você?" "Como podem ter certeza se ninguém diz nada?".
 Eu odiava usar palavras. Inimigas até dos autores, esses conjuntinhos miseráveis de sons da garganta! Já haviam me perturbado tantas vezes; ali somente elas estragariam a harmonia do momento. Xeretas implacáveis, venceram minha serenidade para se meter onde, a princípio, não haviam sido chamadas. Quando dei por conta, já estava obedecendo a cultura extrovertida:
 - Então você também gosta de ir pro seu canto...
 - Sim! Quer dizer... sempre gostei, mas... acho que só descobri agora."

Pessoal, esse é um trecho de um conto que escrevi há uns dois anos +-. Esbarrei com ele outro dia folheando um caderno antigo, e me passou um conforto tão bom que quis compartilhar parte dele aqui   com vocês. O que acharam  da minha escrita literária? Espero que tenha trazido tantas boas sensações quanto trouxe pra mim.
PS: essa cena não é real, mas eu realmente já saí de festas no meio para olhar o  céu...